Ontem eu não era dono do meu próprio nariz; hoje eu posso ser preso. Amanhã dizem que já estarei perto de aposentar. Não entendo porque rotulamos tudo quando o que importa não são os números, ou a aparência física. Eu posso aparentar ser tímido e estar apenas cansado das pessoas. Posso sorrir só pra por fim a um determinado assunto, pra não prolongá-lo mais, porque falsos diálogos me cansam. Assim como pessoas que são tudo, menos aquilo que pensam ser. Eu não ligo se você me chamar de magro, lerdo, gay, ou problemático. Já me disseram que eu deveria me tratar, porque eu só posso ter algum tipo de depressão. Afinal, o que é depressão? Uma doença ou último refúgio que te sobra quando todos desistem de você? Ou melhor, quando você desiste de todos. Minha mãe sempre preocupou em ter uma casa limpa, brilhando. Por isso todos os dias quando chegava do trabalho, por mais cansada que estivesse, limpava a nossa varanda que ocupava mais do que a metade do diâmetro da nossa casa. Por higiene? Sim, mas ainda mais por aparência. Hoje, três anos depois ela reclama que sente dores no corpo pelo cansaço acumulado dos anos. Eu escuto e penso em como eu, com apenas um terço da idade dela já me sinto assim. Não por dores físicas, mas por dores emocionais. Eu não tenho menos nem mais problemas do que ela. Apenas ainda não encontrei um refúgio que engane a grande verdade que está estampada em todos os lugares: viver dói. E muito.

Cleber Oliveira. (via h-ipin0tize)

A margedom